terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tentar perder


por Carlos von Sohsten, Administrador e Consultor

Twitter: @carlosvon

Eu estava chegando a um evento, de carona, com um amigo. O local dispunha de estacionamento interno. Ao chegarmos, ele verificou que muitos carros estacionavam do lado de fora e também parou na rua. Andamos cerca de cento e cinqüenta metros, sob sol escaldante. Lá dentro, constatei aquilo que eu já desconfiava: havia vagas disponíveis. Não era uma questão de sorte.

Acompanhando um familiar que buscava resolver assunto em repartição pública, daquelas sempre lotadas, encontramos dificuldade para entrar. Uma grande fila, muito tumulto e pessoas indo embora, aborrecidas. Estava claro para meu familiar: “impossível resolver qualquer coisa por aqui”. Ele já sinalizava sua decepção e desistência, quando resolvi intervir. Pedi que esperasse e entrei. Lá dentro, ouvi meu nome ser chamado. Um amigo, funcionário do órgão. Resultado: fomos rapidamente atendidos e saímos com as informações que buscávamos. Não era uma questão de sorte.

Reencontrei uma amiga que há muito não via. Dos tempos do colégio. A mais brilhante aluna da turma. Um futuro promissor. Despertava inveja, não só pela beleza física, como pela inteligência. E ainda era a melhor do vôlei. Levei alguns segundos para substituir a nostálgica imagem gravada em minha memória, por aquela que meus olhos insistiam em captar. Algo em mim resistia, mas fui vencido. A mulher estava decrépita. Mal-cuidada.

Desleixada. Vendendo roupas como sacoleira. Para onde tinha ido aquele futuro? Sem querer, foi mais ou menos isso que eu perguntei. Ela desconcertada, confessou-me: “As coisas estão muito difíceis, mas eu fiz o melhor que pude”. Não era uma questão de sorte.

Além de não ser questão de sorte, o que mais esses três acontecimentos têm em comum?

Muito mais do que imaginamos. Comportamentos que, muito provavelmente, cada um de nós já manifestou, de uma forma ou de outra, na vida.

No primeiro caso, meu amigo não acreditou que poderia encontrar um lugar melhor no estacionamento interno. Partiu do princípio que, se os outros estacionavam do lado de fora, por certo, já estaria lotado. Ele não resolveu nem mesmo tentar. Optou pelo caminho mais cômodo. A garantia da certeza o impediu de conquistar algo melhor. Ou, a dificuldade de lidar com o incerto.

O segundo exemplo, apesar de semelhante, possui suas particularidades. A facilidade de desistir diante dos obstáculos; crer sempre no infortúnio; no pior. Ou, a dificuldade de acreditar que alguma coisa boa e inesperada possa acontecer. 

E por fim, “fiz o melhor que pude”. Será que fez mesmo? Como medir isso? Quando alguém obtém um resultado positivo, é possível acreditar que fez o melhor. Mas, diante do fracasso, da derrota, como saber se não foi a mediocridade, o comodismo ou o derrotismo que venceu a excelência?

As três histórias foram vividas por pessoas de nível superior, racionais, que vivem entre a privilegiada classe social dos abastados. Talvez, signifique que não se trata de questão de inteligência ou de condição socioeconômica. Pode ser algo mais especial e interior.

“Tentar” é assumir que há uma chance de fracassar. Afinal, quem tenta pode conseguir ou não. Isso pode ser adequado em muitas situações da vida. Em outras não. “Não tentar” é, por outro lado, desistir por antecipação. Isso também pode ser útil para umas coisas, e contraproducente para outras. “Dar o melhor” é uma retórica muito bonita, mas só vale para os vencedores.

Conclusões:

1) Quando o resultado for realmente importante, decida fazer, e faça. 

2) Acredite mais vezes que fatores desconhecidos podem interferir a seu favor.

3) Compreenda que “ter feito o melhor” só existe quando se obteve o melhor e, ainda assim, sempre há em que se melhorar.

4) Pense a respeito disso em relação a sua vida, agora.

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